06 Novembro 2009
O Caminho
O único som audível é o resmungar do motor. Invade-me o cérebro com a violência de uma vaga a bater na rocha. A dor de cabeça aumenta, o que faz crescer a impaciência. Ao ficar impaciente, carrego mais no acelerador e como é óbvio isso provoca o acréscimo dos roncos mecânicos. É um ciclo vicioso para o qual não pareço encontrar saída. Vou rasgando pelo alcatrão fora, em busca de lugar nenhum. Estou apenas à espera que a estrada acabe. Tudo o que se consegue ver é uma imensa nuvem de pó.
Um mar de areia a rodear a língua de pavimento por onde circulo. Pareço ser o único a utilizar estes caminhos. Há horas e horas que não encontro um único companheiro de viagem. Para passar o tempo, começo a imaginar quantos seres vivos terão sobrevivido. Quantos lagartos, que se afastam bamboleantes da beira da estrada. Quantas cascavéis que se escondem nas areias. Quantos abutres, em cima de quantos cactos. Quantos como eu. Terei sido o último?
À medida que o sol vai desaparecendo atrás das montanhas longínquas, vou rebuscando na memória. No mundo que deixei para trás, cabos órfãos de corrente eléctrica foram reconvertidos em lianas, para podermos atravessar de edifício em edifício. De alguma antiga sucursal de seguros para a carcaça da loja da H&M. Versões futuristas de homens pré-históricos faziam fogueiras com móveis Ikea, para que a carne de algum mamífero desconhecido não acabasse em vómito violento para dentro de uma bolsa da Chanel. No mundo que deixei para trás, deixámos de ter televisão. Rádio. Internet. Publicidade não requisitada nas caixas de correio. Políticos de gravata. Câmaras de vigilância nos cruzamentos das principais ruas. Comida de plástico. Ou qualquer outra. Cada um sobrevivia como podia. Plantava alfaces em terrenos baldios. Inventava armadilhas artesanais a partir de carrinhos de compras de hipermercados e molas retiradas a utensílios de escritório da Staples. Para caçar cães. Gatos. Ratos. Pombos. A partir de certa altura deixamos de distinguir os sabores. Deixamos de distinguir se comemos frango ou apenas carne que sabe a frango. Há muitas carnes que sabem a frango.
Como a nossa.
Aconteceu de um dia para o outro. Estávamos tranquilos na nossa vida de sempre. Acordávamos de manhã ao som do mais recente toque polifónico do nosso telemóvel topo de gama. Tomávamos o nosso duche de água tépida, envoltos na espuma do gel de banho que nos deixava a pele a cheirar a amêndoas e mel. Com o cabelo recheado do fabuloso champô anti-caspa, anti-cabelos brancos, anti-pontas rebeldes, anti-cabelo baço, anti-cabelo quebradiço e mais alguns que de momento não me lembro. Tomávamos o nosso pequeno-almoço, uma mistura de cereais com fibras, ómega 3, aloé vera, flora intestinal, com leite magro, meio gordo, matinal e um iogurte de cereais bífidos activo com sabor a chocolate. Era qualquer coisa parecida com isto. Vestíamos o nosso fato, uniforme, peça de roupa com ou sem marca personalizada, de algodão, linho, lycra, poliéster, uma mistura fabricada por indianos, chineses, tailandeses, revendida a italianos, americanos, espanhóis. Não interessa. Entrávamos no nosso carro japonês, ou alemão, ou francês. Ou no autocarro. Ou no comboio. E passávamos meia hora, duas meias horas ou três meias horas, a pensar em todos os locais onde gostaríamos de estar. E onde iremos. Um dia iremos. Depois de pagar uma casa que só será nossa depois de estarmos mortos. Depois de compramos um carro. Depois de comprarmos o novo computador que é tão parecido com o antigo. Depois…
Pensávamos que éramos felizes. Tudo controlado. Tudo organizado. Tudo previsto. Chegávamos a casa e sabíamos que lá, ninguém nos faria mal. Tínhamos o nosso sofá ergonómico. A nossa televisão de ecrã plano. Os 500 canais de entretenimento.
A refeição aquecida no microondas. A máquina de lavar loiça. A máquina de lavar roupa. Pornografia. Violência numa terra distante. Na nossa fortaleza de conforto, na nossa caixinha pós-moderna, nada de mal nos podia acontecer. Éramos deixados em paz. Como bons cidadãos, pagávamos os impostos. Votávamos no candidato certo. Reciclávamos o lixo. Oferecíamos a roupa da estação anterior numa qualquer Misericórdia. Escondíamos a lágrima quando uma criancinha morria num país de Terceiro Mundo. Abanávamos a cabeça em reprovação quando um toxicodependente assaltava uma velhinha. Éramos justos. Éramos bem formados. Éramos um exemplo de civilização e cidadania.
Um dia, não acordámos ao som do toque polifónico. Havia qualquer coisa no ar.
Uma poeira estranha. Algo de pegajoso que navegava no vento. Naquele dia, a água não saiu tépida dos chuveiros. Nem tépida, nem gelada. Os comboios e autocarros recusaram-se a sair das estações e terminais. Os carros ficaram nas garagens e parques de estacionamento. As pessoas começaram a pensar noutras coisas. Nos 170 milhões de pessoas na América Latina que viviam abaixo do limiar de pobreza, por exemplo.
No fim do Petróleo no Ocidente. No degelo do Pólos. Na energia nuclear entretanto reactivada. Nos incêndios em massa, que provocavam a erosão de terrenos e avalanchas. Nos furacões tropicais que devastavam as zonas costeiras em todo o Mundo.
Nos chips colocados debaixo da pele. Começaram a pensar em todo o tipo de coisas.
Foi pior quando começámos a agir. Quando nos fartámos de comer comida enlatada.
Do recolher obrigatório. Quando começámos a dispensar a licença de porte de arma. Quando os tribunais desistiram de realizar julgamentos. Deixámos de nos sentir seguros em casa, ainda que durante uns tempos, continuássemos a ter 500 canais. E pornografia. Depois reformulámos o conceito de Televisão da Vida Real. Violência e sexo nas ruas. Onde sempre esteve, afinal. A mãe de todas as guerras. A guerra espiritual.
Impérios caíram. Disparámos balas e depois atirámos pedras, antes de finalmente sermos obrigados a perguntar nomes e intenções. A China deixou de ter um problema de excesso populacional. Cousteau dizia que o Mundo só seria ecologicamente equilibrado quando estivesse reduzido a cem mil habitantes. Ninguém se lembrou de fazer um censo. Mas o Planeta Terra parece ter recuperado as rédeas do destino. Dizem que a Amazónia voltou a crescer. Que a Cidade Proibida é livre. Que o Ganges está limpo. Que os atóis e corais ressuscitaram. Que os Pólos gelaram. Talvez a última mina tenha sido pisada em África. É possível que voltem a nascer búfalos nos Estados Unidos, um dia.
Devo ter encontrado o último carro com depósito cheio à face da Terra.
E a última estrada transitável. Preciso de alívio para esta dor de cabeça.
Um mar de areia a rodear a língua de pavimento por onde circulo. Pareço ser o único a utilizar estes caminhos. Há horas e horas que não encontro um único companheiro de viagem. Para passar o tempo, começo a imaginar quantos seres vivos terão sobrevivido. Quantos lagartos, que se afastam bamboleantes da beira da estrada. Quantas cascavéis que se escondem nas areias. Quantos abutres, em cima de quantos cactos. Quantos como eu. Terei sido o último?
À medida que o sol vai desaparecendo atrás das montanhas longínquas, vou rebuscando na memória. No mundo que deixei para trás, cabos órfãos de corrente eléctrica foram reconvertidos em lianas, para podermos atravessar de edifício em edifício. De alguma antiga sucursal de seguros para a carcaça da loja da H&M. Versões futuristas de homens pré-históricos faziam fogueiras com móveis Ikea, para que a carne de algum mamífero desconhecido não acabasse em vómito violento para dentro de uma bolsa da Chanel. No mundo que deixei para trás, deixámos de ter televisão. Rádio. Internet. Publicidade não requisitada nas caixas de correio. Políticos de gravata. Câmaras de vigilância nos cruzamentos das principais ruas. Comida de plástico. Ou qualquer outra. Cada um sobrevivia como podia. Plantava alfaces em terrenos baldios. Inventava armadilhas artesanais a partir de carrinhos de compras de hipermercados e molas retiradas a utensílios de escritório da Staples. Para caçar cães. Gatos. Ratos. Pombos. A partir de certa altura deixamos de distinguir os sabores. Deixamos de distinguir se comemos frango ou apenas carne que sabe a frango. Há muitas carnes que sabem a frango.
Como a nossa.
Aconteceu de um dia para o outro. Estávamos tranquilos na nossa vida de sempre. Acordávamos de manhã ao som do mais recente toque polifónico do nosso telemóvel topo de gama. Tomávamos o nosso duche de água tépida, envoltos na espuma do gel de banho que nos deixava a pele a cheirar a amêndoas e mel. Com o cabelo recheado do fabuloso champô anti-caspa, anti-cabelos brancos, anti-pontas rebeldes, anti-cabelo baço, anti-cabelo quebradiço e mais alguns que de momento não me lembro. Tomávamos o nosso pequeno-almoço, uma mistura de cereais com fibras, ómega 3, aloé vera, flora intestinal, com leite magro, meio gordo, matinal e um iogurte de cereais bífidos activo com sabor a chocolate. Era qualquer coisa parecida com isto. Vestíamos o nosso fato, uniforme, peça de roupa com ou sem marca personalizada, de algodão, linho, lycra, poliéster, uma mistura fabricada por indianos, chineses, tailandeses, revendida a italianos, americanos, espanhóis. Não interessa. Entrávamos no nosso carro japonês, ou alemão, ou francês. Ou no autocarro. Ou no comboio. E passávamos meia hora, duas meias horas ou três meias horas, a pensar em todos os locais onde gostaríamos de estar. E onde iremos. Um dia iremos. Depois de pagar uma casa que só será nossa depois de estarmos mortos. Depois de compramos um carro. Depois de comprarmos o novo computador que é tão parecido com o antigo. Depois…
Pensávamos que éramos felizes. Tudo controlado. Tudo organizado. Tudo previsto. Chegávamos a casa e sabíamos que lá, ninguém nos faria mal. Tínhamos o nosso sofá ergonómico. A nossa televisão de ecrã plano. Os 500 canais de entretenimento.
A refeição aquecida no microondas. A máquina de lavar loiça. A máquina de lavar roupa. Pornografia. Violência numa terra distante. Na nossa fortaleza de conforto, na nossa caixinha pós-moderna, nada de mal nos podia acontecer. Éramos deixados em paz. Como bons cidadãos, pagávamos os impostos. Votávamos no candidato certo. Reciclávamos o lixo. Oferecíamos a roupa da estação anterior numa qualquer Misericórdia. Escondíamos a lágrima quando uma criancinha morria num país de Terceiro Mundo. Abanávamos a cabeça em reprovação quando um toxicodependente assaltava uma velhinha. Éramos justos. Éramos bem formados. Éramos um exemplo de civilização e cidadania.
Um dia, não acordámos ao som do toque polifónico. Havia qualquer coisa no ar.
Uma poeira estranha. Algo de pegajoso que navegava no vento. Naquele dia, a água não saiu tépida dos chuveiros. Nem tépida, nem gelada. Os comboios e autocarros recusaram-se a sair das estações e terminais. Os carros ficaram nas garagens e parques de estacionamento. As pessoas começaram a pensar noutras coisas. Nos 170 milhões de pessoas na América Latina que viviam abaixo do limiar de pobreza, por exemplo.
No fim do Petróleo no Ocidente. No degelo do Pólos. Na energia nuclear entretanto reactivada. Nos incêndios em massa, que provocavam a erosão de terrenos e avalanchas. Nos furacões tropicais que devastavam as zonas costeiras em todo o Mundo.
Nos chips colocados debaixo da pele. Começaram a pensar em todo o tipo de coisas.
Foi pior quando começámos a agir. Quando nos fartámos de comer comida enlatada.
Do recolher obrigatório. Quando começámos a dispensar a licença de porte de arma. Quando os tribunais desistiram de realizar julgamentos. Deixámos de nos sentir seguros em casa, ainda que durante uns tempos, continuássemos a ter 500 canais. E pornografia. Depois reformulámos o conceito de Televisão da Vida Real. Violência e sexo nas ruas. Onde sempre esteve, afinal. A mãe de todas as guerras. A guerra espiritual.
Impérios caíram. Disparámos balas e depois atirámos pedras, antes de finalmente sermos obrigados a perguntar nomes e intenções. A China deixou de ter um problema de excesso populacional. Cousteau dizia que o Mundo só seria ecologicamente equilibrado quando estivesse reduzido a cem mil habitantes. Ninguém se lembrou de fazer um censo. Mas o Planeta Terra parece ter recuperado as rédeas do destino. Dizem que a Amazónia voltou a crescer. Que a Cidade Proibida é livre. Que o Ganges está limpo. Que os atóis e corais ressuscitaram. Que os Pólos gelaram. Talvez a última mina tenha sido pisada em África. É possível que voltem a nascer búfalos nos Estados Unidos, um dia.
Devo ter encontrado o último carro com depósito cheio à face da Terra.
E a última estrada transitável. Preciso de alívio para esta dor de cabeça.
Diagnóstico
Cabin fever is
an idiomatic term for a claustrophobic reaction that takes place when a person or group is isolated and/or shut in, in a small space, with nothing to do, for an extended period (as in a simple country vacation cottage during a long rain or snow).
Symptoms include
restlessness, irritability, forgetfulness, laughter, and excessive sleeping, distrust of anyone they are with, and an urge to go outside even in the (less miserable) rain, snow or dark.
Em nota de rodapé lembrei-me que Reclusão rima com Revelação.
Mas isto, já sou eu a escrever em voz alta.
an idiomatic term for a claustrophobic reaction that takes place when a person or group is isolated and/or shut in, in a small space, with nothing to do, for an extended period (as in a simple country vacation cottage during a long rain or snow).
Symptoms include
restlessness, irritability, forgetfulness, laughter, and excessive sleeping, distrust of anyone they are with, and an urge to go outside even in the (less miserable) rain, snow or dark.
Em nota de rodapé lembrei-me que Reclusão rima com Revelação.
Mas isto, já sou eu a escrever em voz alta.
30 Outubro 2009
23 Outubro 2009
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